quarta-feira, 15 de junho de 2016

Amada Vênus:

o veneno do escorpião exala dos meus poros.
Os corpos cedem à minha preponderância.
Toda carne sucumbe ao meu encanto,
cada osso vibra com o meu toque.

Vim, vi e provoquei gozo reiteradamente.
O meu magnetismo afronta as leis naturais.
Com as minhas mãos suscito erupções vulcânicas.
Descarrego virilidade por condutores de prata.

Contudo, a minha concupiscência é inexorável.
O seu desdém me apoquenta, mas, também,
atiça o meu ardor.
Quando porá fim a esta perversidade?

Negar-me é sufocar o anseio no abismo do inconsciente;
é reprimir pulsão primária e cerrar os olhos para a verdade;
é racionalizar com argumentos desatinados e vãos.

Observe o seu reflexo:
todo o seu corpo delata a libido efervescida;
suas pupilas avolumadas me ambicionam.

Renda-se a este mar de incontinência.
Prometo abeberar o seu anelo mais rutilante.
Resplandecer a luz do sol poente.
Efemerizar a chaga do universo...

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Eu espero

O ontem parece haver se ofuscado em meio às desavenças.
Escombros remanescem e perpetuam a memória dolente.
A estrela fulgurante decai e perde o brio.

Postulo:
Fui e tenho sido vítima desta natureza ignomiosa.
Semeei, lavrei e assim germinaram efeitos degenerados.
Réu confesso de crimes arbitrados por seleção natural.
Um momento, abandono a empáfia.
Abro mão da súplica por remição
e faço conhecer o meu ponto débil.
De todos os anelos desabrochados de uma mente leviana,
um apenas se releva e justifica uma vida:
rogo por ela, menina de olhos pardos.
Através dos meus espelhos a venero.
Do meu pedaço de céu a alimento e espero.

E espero.

E espero.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Vejo

Vejo, por entre o vidro da porta,
a luz refletir no asfalto embebido.
O céu já não verte água.
A rua é macambúzia, nostálgica.
Meus olhos contemplam o chão rutilante;
entanto, a minha mente transita
por tempos desconexos
no decurso de um átomo.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Segunda partida

A hora fúnebre se acerca outra vez. As cores se ofuscam em linguagem prostrada que desafoga o coração sucumbido. Elas se renegam com um pavor obscuro e fogem à medida que a luz se definha.

A vida distópica, que se havia outorgado um hiato de letargia, repossui os meus sentidos a passos brandos, que depois aceleram e mascam o meu consciente.

Eu dou as costas, e os meus sentidos tartamudeiam e desvanecem o viço. Um espectro nas entranhas dos meus neurônios, contudo, insufla batidas alquebradas no meu órgão torácico; por alguma razão ignota, esta peleja ainda abrasa o meu sangue.

Desperto-me de um reconto musical para dentro de um sonho kafkiano. Não há dor tão excruciante quanto a dor inventada.

Debaixo de cada metáfora, de cada sinestesia jaz absconso outras figuras que, por sua vez, dissimulam o rumo de toda palavra minha. Elas não são proferidas tencionando assimilação. Elas desabrocham naturalmente da autocomiseração. Tudo é hermético quando a mente não reaviva memórias...

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Erotismo empanado

Tenho uma declaração a proclamar: perdi o meu encalço em seus contornos concordes. Perfiz uma curva sinuosa e me vi apaixonado pela sua geometria. Recorri, genuflexo, aos mais célebres cartógrafos em busca de um itinerário; "inconcebível", assegurou Canabrava.

Com pupilas engrandecidas, tive a minha visão turvada por névoa. Um olor de jasmim me conduzia pelo seu campo florescente, como uma isca numa ratoeira enfeitiça um mísero roedor. Defronte a tão cobiçoso fruto, deleitei-me de um sonho materializado; ah! Que mais doce quimera!

O meu peito bailava um Tango Argentino num ritmo vertiginoso. Não me importava; que fosse o meu réquiem! Eu era um escravo que atravessara o deserto, sequioso. Das suas fontes brotavam água imaculada, e dela bebi à saciedade.

Àquele instante, transfigurei-me em seu títere. Enquanto a sua índole tirânica se aprazia, a minha libido infame alçava os céus.

A despeito do meu constrangimento, relato o epílogo desta aventura lacônica: um relâmpago inopinado foi lançado; desfaleci. A sua gargalhada, diante ao meu demérito, ficou entalhada em minha memória e para sempre reavivada.