quarta-feira, 27 de abril de 2016

Partida

O tempo corre desatinado. Último abraço, penso. Tento perpetuá-lo. E se for o último? Engulo em seco ante a tal hipótese desgraçada.

Distancio-me hesitante, fixado nos seus olhos castanhos escuros. Observo a sua expressão facial, que parece dizer: por favor, não vá. As circunstâncias não me permitem cogitar outro porvir.

Encontro tempo para mais um abraço; esse, mais estreitado, mais saudoso, mais pungente. Mantenho meus lábios selados por receio de verter lágrimas; os seus também permanecem assim. Palavras não nos servem.

Distancio-me mais uma vez e me insiro na fila. À medida que caminho, olho por cima dos meus ombros e a vejo apequenando-se. Penso no meu coração, que o deixo aos seus cuidados, como caução da minha revinda. Cessam os estímulos visuais, e parto com as lembranças e a melancolia.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Ela

Todo o meu pretérito desvaneceu. A sua alvura evidenciou uma perspectiva jamais patente. Desde logo, a sua natureza brotou raízes nas minhas íris, acalentando os pensamentos mais inoportunos.

A cada passo titubeante, as suas palavras me norteiam e me servem de esteio. Exaladas de boca tão lhana, vibram os meus tímpanos e alentam a minha alma desolada.

Oh! Circunstâncias antagônicas! Gracejam com os meus anelos em devassidão despropositada. Cansei-me de ser títere em suas mãos frígidas.

O que um homem deve ser, dizer, sentir para sobrepujar as algemas da pusilanimidade?

Com o meu destino ignoto, sou impelido a escavar o meu fadário. O ócio me arrebata a esperança, mas o afã preconiza o meu êxito.

Somente lhes peço, ó circunstâncias: condoam-se do meu afinco, ora; pois a causa é justa, e a moça é bela.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Elucubração

Uma borboleta feneceu hoje. Bosquejou o seu último bater de asas e desabou sobre a terra seca. O seu vigor já enlanguescia fazia muito. Tombou apática, moribunda. As consequências foram caóticas. Uma mãe de filho único padeceu do egresso tresloucado desse. Outra, de primeira viagem, embevecia-se com o pranto da sua criatura recém-chegada. Um ancião em seu leito derradeiro lamentou a vida pretérita e preterida. Outro, acostado no banco do parque, testemunhava o seu neto correr eximido de qualquer preocupação.

Este silêncio cabal agoniza a minha audição e faz os meus ouvidos sibilarem. Volteio devagar o meu corpo e nada mais que este mar de lápides me circunda. Vejo que o tempo não cessou, nem por um segundo, a sua marcha belicista.

Faz frio; a brisa traspassa a minha pele e enrijece os meus pelos. Insolitamente, o vento se mantém taciturno, assim como o meu peito. Pressiono a minha mão sobre o lado esquerdo e sinto um mutismo pleno.

Esqueci-me de como é estar vivo, ou quiçá nunca o soube. Tal acepção perdura enigmática.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Tempo

Ainda me lembro do tempo quando a vida era um eterno prelúdio: meus olhos fitavam o vasto horizonte, meus pés mantinham passadas alígeras.

Ainda me lembro quando o sol abrasava o meu coração e o palpitava em tão admirável pujança. O calor aquentava os meus poros, e o meu corpo revelava tão formidável resiliência.

Ainda me lembro quando as gotas frias de chuva acometiam a minha epiderme numa perfeita dissonância com os seus toques serenos. Àquela época quando as intempéries sobreviviam um átimo apenas.

Agora, na quietude deste cômodo, o tic-tac do relógio se faz proeminente. Tal som monocorde não me é estranho; no entanto, para o meu assombro, a minha mente é levada a cogitar tão angustiante epifania. Percebo, a cada piscar de olhos, as lembranças incendiando os meus neurônios e concebendo imagens enuviadas. Por tanto serem acessadas nos últimos decênios, questiono a sua integridade. Elas são, ainda, o que eram de fato, ou há muito foram malsinadas pela inclemente ação do tempo?