quarta-feira, 25 de maio de 2016

Vejo

Vejo, por entre o vidro da porta,
a luz refletir no asfalto embebido.
O céu já não verte água.
A rua é macambúzia, nostálgica.
Meus olhos contemplam o chão rutilante;
entanto, a minha mente transita
por tempos desconexos
no decurso de um átomo.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Segunda partida

A hora fúnebre se acerca outra vez. As cores se ofuscam em linguagem prostrada que desafoga o coração sucumbido. Elas se renegam com um pavor obscuro e fogem à medida que a luz se definha.

A vida distópica, que se havia outorgado um hiato de letargia, repossui os meus sentidos a passos brandos, que depois aceleram e mascam o meu consciente.

Eu dou as costas, e os meus sentidos tartamudeiam e desvanecem o viço. Um espectro nas entranhas dos meus neurônios, contudo, insufla batidas alquebradas no meu órgão torácico; por alguma razão ignota, esta peleja ainda abrasa o meu sangue.

Desperto-me de um reconto musical para dentro de um sonho kafkiano. Não há dor tão excruciante quanto a dor inventada.

Debaixo de cada metáfora, de cada sinestesia jaz absconso outras figuras que, por sua vez, dissimulam o rumo de toda palavra minha. Elas não são proferidas tencionando assimilação. Elas desabrocham naturalmente da autocomiseração. Tudo é hermético quando a mente não reaviva memórias...

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Erotismo empanado

Tenho uma declaração a proclamar: perdi o meu encalço em seus contornos concordes. Perfiz uma curva sinuosa e me vi apaixonado pela sua geometria. Recorri, genuflexo, aos mais célebres cartógrafos em busca de um itinerário; "inconcebível", assegurou Canabrava.

Com pupilas engrandecidas, tive a minha visão turvada por névoa. Um olor de jasmim me conduzia pelo seu campo florescente, como uma isca numa ratoeira enfeitiça um mísero roedor. Defronte a tão cobiçoso fruto, deleitei-me de um sonho materializado; ah! Que mais doce quimera!

O meu peito bailava um Tango Argentino num ritmo vertiginoso. Não me importava; que fosse o meu réquiem! Eu era um escravo que atravessara o deserto, sequioso. Das suas fontes brotavam água imaculada, e dela bebi à saciedade.

Àquele instante, transfigurei-me em seu títere. Enquanto a sua índole tirânica se aprazia, a minha libido infame alçava os céus.

A despeito do meu constrangimento, relato o epílogo desta aventura lacônica: um relâmpago inopinado foi lançado; desfaleci. A sua gargalhada, diante ao meu demérito, ficou entalhada em minha memória e para sempre reavivada.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Último suspiro

Escutei ontem que o futuro seria hoje.
A noite sobreveio;
estirei-me no jardim a contemplar o céu.
A lua me espreitava, detrás do horizonte, curiosa.
A permuta de olhares era incondicional.
Sorri-lhe e auscultei o sobejo elenco.
Fiz de conta que enumerava os corpos,
ali,
sobrenadando:
havia estrelas à farta!

As horas ebuliram e se dispersaram.
Dormitava na relva branda,
quando o feixe do antemanhã me avivou.
Logo, o crepúsculo se derramou pelo firmamento,
e o sol emergiu impositivo.

Fui ludibriado: o futuro nunca veio.
Inferi que ele era uma constante inquebrantável.
Sem demora, a sua significância foi obliterada.
Conduzi a vida como alvorada infinda,
arrojei o meu tempo como uma pedra no mar.

Então,
um dia,
o meu último amanhã me abordou.
Não ressoou a porta, não toou a campainha.
A constante, que ontem, imorredoura,
descorou a sua substância e se apagou.
O futuro nunca vindouro havia chegado:
assim entreguei o meu último suspiro.