quarta-feira, 30 de março de 2016

Chegada

A paisagem não me é estranha. O tanto que observei as fotos, sinto, agora, que caminho pelas ruas da minha meninice. Não sou um turista, mas um filho bastardo que fugiu, ainda criança, da malquerença de sua madrasta, e retorna depois de grande.

Eu, conquistado pela contingência de um amor sempiterno, evado do meu conforto erosivo, defronto as intempéries e enfermidades, e saio em procura de um mundo que me permita ser.

Com os pés arraigados ali, na esquina, sinto na pele os minutos mordazes. Todos os rostos passam inexpressivos, todos eles me parecem vãos. Meu peito se manifesta inconhecível, minhas mãos úmidas denotam o medo de um futuro controverso.

Após uma boa porção de angústia, minha tenacidade se revela frutuosa. Um rosto se põe em evidência e se acerca em toda sua angelitude. Nota-se que o desassossego é recíproco, e o beijo apressurado fora premeditado. Somos transmutados em crianças, e somos melhores amigos no jardim de infância; desfrutamos, ali, em sua plenitude, do melhor átimo de nossa existência.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Nostalgia

Quão mordaz esta quietude em meus ouvidos:
Sibila, atribula, evoca a memória entorpecida.
A lua tão cheia e tão equidistante de nós dois,
única matéria no espaço,
satélite tão longínquo
capaz de propiciar concomitância de olhares.

Intérminas horas pesarosas até o transitório fim.

Abro os olhos: novo ensejo.
Mais um dia oco nesta vastidão de células...

quarta-feira, 16 de março de 2016

Olvido

O fogo inflama a minha pele e constato que ainda vivo. Meu corpo exibe obstinação; em sua luta inata, em meio ao caos consagrado, segue recalcitrante e antagonista.

A luz, que outrora alvorecia um futuro alvissareiro, agora enturva os meus olhos e confunde o tempo e espaço.

O silêncio reacende memórias longínquas, de uma suposta primavera vivida, deixando um gosto agridoce em minha boca.

Ditatorial em seu sadismo, o inverno consolida a sua monarquia e oferece a dor como única fonte de prazer. Consigo, apresenta a escuridão como única amiga. Uma companheira desleal que não mede esforços em ludibriar-me. Que ao primeiro piscar de olhos, finca uma estaca em minhas vértebras e me persuade a vê-lo como um grito de liberdade.

Com voz inaudível, emito um protesto veemente; contudo, esgoto qualquer resquício de vigor que ainda me resta.

Sou levado com a corrente a um destino desconhecido, traçando a minha sorte e cumprindo a minha sina. No fundo do oceano, evidencio criaturas jamais testemunhadas. A água glacial regela as minhas entranhas e perco a intimidade com o meu corpo. Faço o meu caminho ao limbo e finalmente me encontro. A luta de uma vida cessa e, ali, alcanço absolvição.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Doce desatino

Um vórtice de pensamentos contorna a minha mente a todo instante. Nas ideias mais banais, aí está ela fomentando a minha imaginação.

O seu ente enraizou no meu inconsciente e o seu caule exsurgiu monumental.

A droga mais acirrante não logra afervorar tanta serotonina. É mais que o corpo humano pode suportar, no entanto estou ávido. Anseio por mais e mais, uma superdose!

Entre a realidade e o devaneio me enredo, contudo mantenho o passo aligeirado. Descubro novas cores e sabores, novos mundos e galáxias.

A doença mais funesta é anestesiada e silenciada: que tão milagrosa medicina!

Uma nova camada de pele sobrepõe a minha e me ampara de qualquer contradição.

Os lençóis se incendeiam com desmesurada sinergia. As chamas sobrepujam o meu campo visual, e contemplo, maravilhado, este doce desatino.