quarta-feira, 4 de maio de 2016

Último suspiro

Escutei ontem que o futuro seria hoje.
A noite sobreveio;
estirei-me no jardim a contemplar o céu.
A lua me espreitava, detrás do horizonte, curiosa.
A permuta de olhares era incondicional.
Sorri-lhe e auscultei o sobejo elenco.
Fiz de conta que enumerava os corpos,
ali,
sobrenadando:
havia estrelas à farta!

As horas ebuliram e se dispersaram.
Dormitava na relva branda,
quando o feixe do antemanhã me avivou.
Logo, o crepúsculo se derramou pelo firmamento,
e o sol emergiu impositivo.

Fui ludibriado: o futuro nunca veio.
Inferi que ele era uma constante inquebrantável.
Sem demora, a sua significância foi obliterada.
Conduzi a vida como alvorada infinda,
arrojei o meu tempo como uma pedra no mar.

Então,
um dia,
o meu último amanhã me abordou.
Não ressoou a porta, não toou a campainha.
A constante, que ontem, imorredoura,
descorou a sua substância e se apagou.
O futuro nunca vindouro havia chegado:
assim entreguei o meu último suspiro.

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