quarta-feira, 6 de abril de 2016

Tempo

Ainda me lembro do tempo quando a vida era um eterno prelúdio: meus olhos fitavam o vasto horizonte, meus pés mantinham passadas alígeras.

Ainda me lembro quando o sol abrasava o meu coração e o palpitava em tão admirável pujança. O calor aquentava os meus poros, e o meu corpo revelava tão formidável resiliência.

Ainda me lembro quando as gotas frias de chuva acometiam a minha epiderme numa perfeita dissonância com os seus toques serenos. Àquela época quando as intempéries sobreviviam um átimo apenas.

Agora, na quietude deste cômodo, o tic-tac do relógio se faz proeminente. Tal som monocorde não me é estranho; no entanto, para o meu assombro, a minha mente é levada a cogitar tão angustiante epifania. Percebo, a cada piscar de olhos, as lembranças incendiando os meus neurônios e concebendo imagens enuviadas. Por tanto serem acessadas nos últimos decênios, questiono a sua integridade. Elas são, ainda, o que eram de fato, ou há muito foram malsinadas pela inclemente ação do tempo?

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